terça-feira, 28 de setembro de 2010

Mundo Vigarista

Cinco e meia da manhã, o relógio me desperta de um sonho que eu vinha tendo há exatamente duas semanas. Sentado na cama, aguardo meus olhos acostumarem com a claridade que começa a descer sobre a cidade. Sem tomar um mísero copo de leite pela manhã, caminho direto ao banho. Em outros tempos, ou em outras vidas, mais algumas horas, esperava você se levantar do outro lado dessa selva de pedras, e logo ia lhe desejando um bom dia e mandando mil e um beijos.
Durante os desdobramentos do dia, uma trilha sonora carregada de sentimentalismo passava por minha cabeça, chegava a cantarolar algumas dessas canções, esperando o fim de tarde se aproximar para podermos conversar até a hora de dormir, e aguardar o fim de semana chegar.
Acontece que o tempo "Senhor dos Destinos", protagonizado com toda justiça, em belas canções, desde Caetano, até os cantores mais modernos do século vinte e um, não me permitiu viver mais aqueles dias. Tornou o meu dia, mais vazio, sem a a presença que vivia do outro lado do muro. Me trouxe novamente ao mundo desigual. Me esculachou, me arrasou, me fez sentir um verdadeiro mendigo, sem abrigo. Restando apenas meus sentimentos confusos que me acompanhariam nos próximos tempos, transformou minha vida em um martírio!
Caí no mundo vigarista, com a vestimenta de um marginal! Os discos antigos, já não conseguia escutar nenhum acorde, os livros que compartilhamos, não compreendia mais sequer uma palavra, e a bebida me derrubava como nunca tinha acontecido ao seu lado.
Chegaram até mim teorias e mais teorias sobre felicidade, tristeza e até morte. Não quis aprofundar em nenhuma delas, pois a única teoria que me cabia naquele momento, era a que é seguida da difícil prática de viver sem uma droga que me alimentara por longos períodos. Enquanto pulsava o sangue, busquei na literatura que lhe era distante a melhor opção para acabar com essa dor, e por fim, resisti bravo e forte aos ventos gelados que sopravam por dentro de mim. Sem me alimentar direito, emagreci, mas continuei em guarda, esperando a tempestade passar.
Com tantos desastres ocorridos, descobri que nada existiu, ainda que o sofrimento continue de hora em hora frequentando meu corpo, achei melhor cantar outras canções e sofrer distante e calado de qualquer perigo.
Sei que você nunca sentiu nada por mim, e pela primeira vez escrevendo a palavra "amor", juro que tento, mas não sei mais se ela é uma realidade distante ou uma abstração que nosso sub consciente nos impôs algum dia.

Imagem; Pintura de Toulouse Lautrec. A vida amargurada nos cabarés parisienses do século XIX

3 comentários:

artificio_al disse...

Mais que um texto, um desabafo.

Anônimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Anônimo disse...

incrível.